07/01/11

O beco sem saída

(...) entre os 13740 organismos públicos, o Tribunal de Contas só recebeu a contabilidade de 1724 e fiscalizou 418.

(... ) a cada 12 dias nasce uma fundação, que o seu dinheiro paga viagens, flores e até tapetes e que as compras online poupariam 42 mil milhões de euros por ano.
DN

02/01/11

Rendimento máximo

Nos últimos anos muito se tem falado pejorativamente do rendimento mínimo, actual rendimento de inserção social (RSI). Embora em várias circunstâncias de forma fundamentada, também de forma demagógica em muitas delas, pois este subsidio serve para colmatar aquilo que o Estado não consegue fazer: redistribuição da riqueza. Contudo, convenientemente, nunca se falou dos que vivem do rendimento máximo, ou seja, todos aqueles que também não trabalham nem exercem nenhuma profissão e o orçamento de Estado sustenta a sua vida, providenciando rendimentos de milhões de euros ou aqueles que exercem actividades em que dedicam poucos meses ou anos de trabalho. No 1º grupo incluem-se a monarquia (reis, rainhas e todos os descendentes) e os políticos que ocuparam cargos governativos, recebendo uma subvenção vitalícia, e no 2º grupo, actores, jogadores desportivos, músicos.

Porque também não se fica indignado por alguém ter como pais alguém a quem chamam reis e com isso ter garantido vitaliciamente rendimentos para viver luxuosamente? O que se vê é a idolatria completa, com consumos dos jornais e revistas sempre que surgem notícias da sua vida privada ou acolhimentos apoteóticos na rua. Mas, para uma família receber uns míseros trezentos e tal euros, é a critica feroz, porque são calaceiros e parasitas que não querem trabalhar. Como se os reis, príncipes e princesas quisessem e trabalhassem muito…

E algum governo procedeu a reduções ou extinções deste tipo de financiamento? Obviamente que não.

Ou não ficar indignado por alguém que trabalha 3 meses num filme, faz uma digressão musical de 6 meses ou joga por 10 anos, e recebe milhões de euros?

Mais uma das muitas incongruências ininteligíveis da sociedade humana…

Análise sócio-económica

Os portugueses ainda não se deram conta de que estão numa situação em que a soberania dos Estados - não havendo uma regulação dos mercados financeiros - está sujeita aos abutres financeiros. Uma das coisas que me horroriza é dizer-se na comunicação social cobras e lagartos do Estado ou que a festa acabou e que Portugal é insustentável, enquanto ninguém é tão veemente no que respeita ao facto de os mercados financeiros poderem ganhar rios de dinheiro com a nossa crise e até se façam apostas para ver se a dívida portuguesa será paga e que se ganhe muito dinheiro na aposta. Isto é crime contra a humanidade!

(...) Há anos dizia que o mundo pós- guerra tinha duas superpotências: Estados Unidos e agência Moody's. Neste momento, estamos nas mãos das agências de notação e algo deve estar profundamente errado quando os juros da dívida de Espanha são iguais aos do Paquistão.

(…) os mercados vão regular tudo e assistiremos a um empobrecimento da grande maioria e ao enriquecimento absolutamente injusto de uns poucos.

(…) São os que estão na fila - Portugal, Espanha e Itália - e os mercados financeiros estão a apostar na bancarrota destes países porque vão ganhar muito dinheiro até que ela ocorra. Como é que é possível que os países funcionem nesta base quando se aposta na nossa falência e no lucro que ela dá?

(…) A agricultura foi um péssimo negócio em que Portugal entrou. Tínhamos uma das agriculturas familiares mais fortes da Europa e foi destruída em meia dúzia de anos porque o modelo agrícola da Europa é de grande extensão e de grandes empresas agrícolas e industriais. A nossa produção familiar até era produtiva ao seu nível e produzia, por vezes, também para o mercado.

(…) se não houver a regulação dos mercados financeiros ou o Estado nacionaliza os bancos ou os bancos nacionalizam o Estado. É isso que está a suceder, os bancos estão a nacionalizar o Estado ao fazerem o que querem, ao terem perdas como as que se observam. Como os bancos não podem falir, nem pagam IRC como as restantes empresas, é evidente que estão a nacionalizar o Estado português porque cometem todos os erros que querem e têm os lucros que se vê, para os quais os portugueses continuarão a contribuir.

(…) O Banco Central Europeu não pode continuar a ter o papel de emprestar aos bancos a um juro baixo e deixar que estes emprestem caro aos Estados. Nem podemos continuar a ter 10% do nosso PIB em offshores!

Boaventura Sousa Santos (entrevista ao DN)

Portugal 2011

  • 2 milhões de pobres
  • 2 milhões com salário mínimo
  • 700 mil desempregados
  • salário médio de €600 (incluindo profissões com habilitações académicas superiores)

01/01/11

Citação

Todos os homens têm direito a serem felizes. Acredito que o sentido da vida é procurar essa felicidade.
Dalai Lama

31/12/10

Fogo artificial

E continua por 2011...
Milhares de euros a estourar pólvora colorida na atmosfera para alienar durante breves minutos a multidão. Em rigor, devia ser por motivos fundamentados, de alegria e celebração; mas enquanto mais de metade da população humana viver na pobreza, o fogo de artificio é mera hipocrisia...







Liderança medíocre

Recebido por e-mail e que subscrevo:

Enquanto o hipócrita debitava o discurso de Natal, era publicado no DR de 24/12(!) o diploma legal que vai enterrar o país por muitos anos. O descaramento asqueroso: discursar na TV propaganda politica optmista, quando já tinha assinado a sentença de morte...

Na Educação, a novidade(?) de se extinguir a AP do 12º, despedir 5000 professores com previsão para 15000 a partir de Setembro, e reduzir o suplemento salarial da Direcção das escolas quando em 2008 foi unilateralmente modificado pelo ME. Na Saúde, os actos médicos serão escrutinados em função do que se gasta e não em função da necessidade do doente. Enfim...

Com a quantidade de dinheiro que circula diariamente no mercado bolsista e financeiro, argumentar que não existe financiamento é tratar-nos como atrasados mentais e nós deixamos...

Para quem nunca experimentou a angústia e a sensação de depressão, vá-se preparando, porque este será o pior final de ano das últimas dezenas de anos...

Já todos sobejamente sabem o que nos espera e por isso este será o último comentário sobre o tema. Apenas alerto que os trabalhadores do Estado, incluindo professores, se preparem para o impensável há uns anos atrás: o despedimento. Será inevitável, como atestam os diplomas legais publicados, e portanto, convém começar a pensar noutras formas de sustento. Por causa do efeito dominó, todos os outros trabalhadores vão sofrer os mesmos efeitos, sem a rede protecção social que existia. Aquilo que só conheciam nos livros de história, muitos vão experimentá-lo no quotidiano: escravidão laboral, violência social frequente, violência moral (mobbing) no local de trabalho, pobreza, qualidade de vida diminuta. Ai de quem é criança, doente ou idoso porque os que estão no meio não podem ajudá-los, porque não possuem rendimentos e estão demasiado ocupados a sobreviver...!

Merda de país, merda de dirigentes e merda para todos nós que não fomos educados a lutar contra a opressão politica e económica. Mataram o nosso futuro e os dos nossos filhos!...

Meus caros, até algures e boa sorte porque os milagres estão de férias...

29/12/10

O resultado do capitalismo neoliberal (selvagem)

A falência do Estado leva a uma organização social que existiu há milénios atrás, baseada no poder pela força física. Esta falência é decorrente da imposição do modelo capitalista selvagem, liberal, sem regulação. Eis um exemplo do que pode acontecer em qualquer parte do mundo, incluindo o ocidental:

CIUDAD JUAREZ, Mexico – The last remaining police officer in the Mexican border town of Guadalupe has disappeared, and prosecutors in northern Chihuahua state said Tuesday they have started a search for her. Twenty-eight-year-old officer Ericka Gandara held out despite the desertions and resignations that left her as the only officer in the Juarez Valley town, which was served by eight police a year ago. But Gandara hasn't been seen since Dec. 23. While some local media have reported Gandara was kidnapped, prosecutors' spokesman Arturo Sandoval said her relatives have not filed a kidnap complaint. Sandoval said the search was started Monday as a missing-person case.The same day she disappeared, assailants also set fire to the home of a Guadalupe town councilwoman. The Sinaloa and Juarez drug cartels have been battling for control of the Juarez Valley, leading many residents to flee across the border to Texas or to other Mexican cities. Most police officers, outgunned by the drug cartels, have resigned and officials say few people are willing to take their place. The burden of law enforcement has increasingly fallen on a few women. In the neighboring town of Praxedis G. Guerrero, a 20-year-old woman was sworn in as police chief in October. The man who previously held that office had been gunned down in July 2009 and the town had been unable to find a replacement for more than a year. The drug gangs are trying to control the valley's single highway, a lucrative drug trafficking route along the Texas border.

25/12/10

Refelexão para o próximo ano (e seguintes...)

A cidade de Seattle recebeu o nome do chefe índio dos Suquamish, cujo discurso foi a resposta a um tratado proposto pelo presidente americano tentando persuadir os indígenas a venderem dois milhões de acres por US$ 150000 (cento e cinquenta mil dólares americanos).


Resposta do Chefe Seattle ao Presidente dos Estados Unidos -1854

Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?
Essa ideia parece-nos estranha.
Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo.
Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa,
cada clareira e insecto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo.
A seiva que percorre o corpo das árvores, carrega consigo as lembranças do homem vermelho.
Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas.
Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois é a mãe do homem vermelho.
Somos parte da terra e ela faz parte de nós.
As flores perfumadas são nossas irmãs, o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos.
Os picos rochosos, os sulcos húmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem - todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós.
O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos.
Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos.
Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil.
Esta terra é sagrada para nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados.
Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida de meu povo.
O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede.
Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças.
Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nosso irmãos, e seus também.
E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicarem a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes.
Uma porção de terra para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra coisa, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra, aquilo que necessita.
A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda.
Arranca da terra aquilo que seria de seus filhos e netos.
A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos.
Trata a sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
Eu não sei, os nossos costumes são diferentes dos seus.
A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho.
Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco.
Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar das folhas na primavera ou o bater das asas de um insecto.
Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo.
O ruído parece somente insultar os ouvidos.
E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite?
Eu sou um homem vermelho e não compreendo.
O índio prefere o suave murmúrio do vento, encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilhamos o mesmo sopro.
Parece que o homem branco não sente o ar respirar.
Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro.
Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém.
O vento que deu ao nosso avó seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro.
Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.
Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra.
Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir.
Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um comboio que passava.
Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecermos vivos.
O que é o homem sem os animais?
Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem.
Há uma ligação em tudo.
Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo.
Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe.
Tudo o que acontece à terra, acontecerá aos filhos da terra.
Se os homens cospem na terra, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem: o homem pertence à terra.
Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família.
Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra.
O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios.
Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum.
É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo.
Veremos.
De uma coisa estamos certos – e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não é possível.
Ele é o Deus do homem vermelho e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco.
A terra lhe é preciosa e feri-la é desprezar o seu criador.
Os brancos também passarão: talvez mais cedo que todas as outras tribos.
Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejectos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho.
Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.
Onde está o arvoredo?
Desapareceu.
Onde está a águia?
Desapareceu.
É o final da vida e o início da sobrevivência.

24/12/10

O herói anónimo

“Vocês mataram o futuro dos nossos filhos”, era o que estava escrito na T-shirt, referindo-se aos deputados da Assembleia. Este gesto relembra as imolações dos monges budistas protestando contra guerra do Vietname. Ao não ceder à tentação- que seria despoletar uma bomba colocada no corpo de modo a provocar o maior número de vítimas- , este homem protestou humanamente em nome de todos nós, vitimas da ganância e imoralidade de todos os detêm o poder e o usam meramente em proveito próprio. Cedeu a ser mártir para milhões de anónimos…

Constrangido por não ter a mesma coragem que ele, apenas me resta dedicar os meus pensamentos em sua memória…

Foi um protesto desesperado, feito enquanto o primeiro-ministro romeno, Emil Boc, discursava no Parlamento. Adrian Sobaru subiu ao corrimão da galeria e atirou-se de uma altura de sete metros. Sofreu vários traumatismos na cabeça e no resto do corpo, segundo o diário espanhol “El País”, mas os médicos dizem que não corre risco de vida.
Sobaru, na casa dos 40 anos, é pai de dois filhos e o seu protesto estará relacionado com os cortes anunciados pelo Governo. Levou para o Parlamento uma t-shirt onde se lia “vocês mataram o futuro dos nossos filhos” e saltou da galeria enquanto os deputados discutiam uma moção de censura contra o Governo que acabou por ser recusada.

http://publico.clix.pt/Mundo/electricista-romeno-atirouse-das-galerias-do-parlamento-em-bucareste_1472319

20/12/10

Felipe lembrou-se da história do Rei do Oriente que, desejando conhecer a história da humanidade, recebeu de um sábio quinhentos volumes; ocupado com negócios de Estado, pediu-lhe que a condensasse. Ao cabo de vinte anos, o sábio voltou e a sua história ocupava agora apenas cinquenta volumes; mas o rei, já velho demais para ler tantos livros volumosos, pediu-lhe que a fosse abreviar mais uma vez. Passaram-se de novo vinte anos, e o sábio, velho e encanecido, trouxe um único volume com os conhecimentos que o rei procurara; este, porém, estava deitado no seu leito de morte, nem tinha mais tempo de ler sequer aquilo. Aí o sábio deu-lhe a história da humanidade numa única linha: “Nasceram, sofreram, morreram”.

Somerset Maugham, in “A Servidão Humana”

03/12/10

O eterno retorno

Sinceridade

“Há uma guerra de classes, é um facto, mas é a minha classe, a dos ricos, que a conduz, e estamos em vias de a ganhar”. Warren Buffet, multimilionário, jornal New York Times (26/11/2006)

A 'rigidez' da lei laboral

Um dos insistentes argumentos usados pelos paladinos do neoliberalismo económico é a (suposta) rigidez laboral em Portugal, ou traduzindo, a dificuldade em despedir um trabalhador. Esta falácia é facilmente desmentida com as centenas de despedimentos colectivos céleres que foram feitos nos últimos anos; quando se fala em dificuldade, está-se referir que é difícil despedir sem indemnização, porque caso a entidade patronal esteja disposta a pagar, a dificuldade de despedir não existe. Além disso, de acordo com a informação da OCDE sobre o índice de rigidez das leis laborais em vários países (classificação de 0 a 6, sendo 6 o mais rígido), Portugal possui o índice 2,93, atrás da Espanha e a par com a França, estando próximo da Alemanha e Itália (2,39)…

Essa (suposta) rigidez é facilmente ultrapassada pela atitude de muitos empresários, como alguns exemplos a seguir relatados:

Um patrão, distribuidor da SAAB no norte do país, até um rotweiller pôs ao lado, durante uma reunião de confronto com um trabalhador. O caso resolveu-se com um acordo indemnizatório de apenas €6 mil. Rita Garcia Pereira relata um outro caso, em que um CEO de uma farmacêutica usou um chicote durante reuniões de avaliação de objectivos.

Aos quadros intermédios da France Telecom foi dada formação sobre como lidar com processos de mudança laboral. Terá sido numa dessas formações que ocorreu a estória do ‘gatinho’, contada prelo sociólogo Christophe Dejours. Para ilustrar o espírito competitivo e impiedoso do novo Deus-o mercado- foi pedido a uma dezena de formandos que, durante 5 dias tratasse de um gato apenas para no 6º dia o matarem. Só um dos alunos, uma mulher, não o fez; foi a única a ser enviada para tratamento psiquiátrico.” Revista Sábado

19/11/10

Uma falácia da vida

Uma cimeira com 60 chefes de Estado é sempre justificação de protocolos de segurança rígidos. Os custos financeiros disparam mas são admitidos para justificar a segurança. Postos de controlo nas fronteiras, ruas encerradas, serviços públicos encerrados, para evitar um hipotético ataque de algum grupo organizado. Contudo, sendo realistas, estes grupos, sendo organizados, há muito tempo que já teriam entrado no país e não seriam nestes dias que o tentariam fazer. Além disso, o comando-geral da GNR admite que é impossível uma vigilância permanente em toda a fronteira portuguesa. Dito isto, então porque se está a gastar centenas de milhares de euros colocando postos policiais apenas nas fronteiras mais frequentadas, sabendo que a eficácia de impedir a entrada a grupos com intenções terroristas é bastante reduzida?

Sendo politicamente incorrecto, apenas para persuasão psicológica e justificar o uso de dinheiro público que de outro modo seria muito difícil justificar…

04/11/10

Confissão

Cogito há vários dias, numa pérfida indecisão. A minha raiva e revolta pendem para a adesão à luta social publicitada mas a minha racionalidade pende para a resignação, porque convicta que da luta não resultará mudança. Abdicar de um dia de descanso, ‘dar o corpo ao manifesto’ por uns tantos passageiros clandestinos que ficam em casa a gozar o dia de fim-de-semana e posteriormente também usufruem de hipotéticas vitórias, está-se a revelar pouco atractivo. Efectivamente, é melhor uma má decisão do que nenhuma decisão, porque a dúvida é mentalmente excruciante. Os indícios apontam para a vitória da razão, que persistentemente tem recordado um aforismo: “Se não lhes podes ganhar, junta-te a eles”. Manter e cultivar boas relações com os adesivados rosa e laranja, será a atitude inteligente, porque será sempre um deles a gerir o poder. A hipótese de obter formação especializada em administração pública, gastando uns milhares de euros, é cada vez mais realista, porque será um dos cargos de refúgio com alguma protecção. E neste contexto, entramos num processo social darwinista, com tudo o que de maquiavélico isto acarreta…

A história repete-se mas não a curto prazo: uma união como a que aconteceu há dois anos, só num futuro longínquo…

“Quem tem unhas, toca guitarra”, mas não é motivador nem revigorante viver num contexto quotidiano de darwinismo social, onde a maioria é escrava ou subjugada; é uma vida sem esperança, sem fulgor, sem brilho…

01/11/10

Doutorado em raiva

OS PORTUGUESES NO FINAL DE 2011

A MINHA VIDA PARA ALÉM DO DÉFICE

Doutorado em raiva (II)

NÃO QUERO:

PAGAR A GANÂNCIA DO SISTEMA FINANCEIRO!

PAGAR A CORRUPÇÃO DA CLASSE POLITICA!

UMA VIDA DE “METRO, TRABALHO, SEPULTURA”!

Nós pagámos os seus lucros, mas não queremos pagar a sua crise!

O dilema da representatividade

É verdade que milhares de professores se sentem defraudados pelos resultados obtidos pelos sindicatos nas negociações com o ME nos últimos dois anos, e por isso, têm sido muito críticos da actuação dos mesmos. Contudo, no quadro jurídico actual, os sindicatos são as únicas instituições que são oficialmente reconhecidas como representativas das classes profissionais, pelo que é fatídico os insatisfeitos terem de aceitar a sua existência.
Os argumentos usados pelos sindicatos para estabelecerem o acordo basearam-se na presunção de que:
- a opinião pública estava cansada da agitação social e não aceitaria inflexibilidade por parte dos trabalhadores
- não era possível prolongar e endurecer a luta porque os trabalhadores iriam desmobilizar a prazo pelo cansaço
- a melhor estratégia politico-partidária a médio e longo prazo seria capitalizar o descontentamento da sociedade e a conflitualidade nas escolas decorrente da implementação de legislação mal elaborada.
Os argumentos de muitos trabalhadores eram opostos aos dos sindicatos:
- estando o governo sem maioria absoluta, era o momento ideal para endurecer a negociação
- caso o governo não cedesse, os trabalhadores estavam com a força anímica para prolongar a luta
- a estratégia politico-partidária devia ser secundária em relação à defesa dos interesses profissionais, existindo a vantagem de existir o apoio explicíto da oposição parlamentar à luta dos trabalhadores.
Os sindicatos implementaram a sua estratégia e os resultados são visíveis: um falhanço total. Por isso, os profissionais devem manifestar a sua opinião critica nem que seja para que as direcções sindicais conheçam o que existe na mente de muitos dos seus representados, mas devem ter consciência que se enveredarem pela ruptura total, então ficarão solitários e à mercê dos caprichos do poder. As acções individuais contra o poder é como um mosquito picar um elefante; se forem milhares de mosquitos a picar o mesmo elefante, o caso muda de figura…
O argumento sindical mais recente, e que é intrinsecamente verídico, é que se continuar a lutar existe sempre a possibilidade de conseguir uma vitória, ao invés de que fica garantido em absoluto que nada se obtém se optar por não lutar. Efectivamente, é inócuo vociferar contra os sindicatos porque eles são o último muro contra a hecatombe total, apesar de se poder detestar a existência do muro. O inimigo do meu inimigo é meu amigo…
Todavia, o problema é que o contexto sócio-económico criado pela elite governamental esvaziou por completo qualquer veleidade de que a continuação de uma luta resulte num resultado positivo, pelo que tem de se assumir que após várias batalhas, perdeu-se a guerra. É a capitulação e a rendição incondicional, com todas as consequências inerentes.
Deste modo, qualquer forma de luta neste momento é meramente para demonstrar aos vencedores que a raiva e a revolta ainda germinam no interior dos derrotados, e que se hipoteticamente no futuro surgir uma oportunidade, cria-se incerteza nas suas hostes de poder existir massa critica de adesão para os atacar.