08/01/10

Até quando?


Mas quando é que, veementemente, os cidadãos do mundo vão exigir a quem detém o poder que mude este capitalismo perverso? Quando é que teremos empresários com consciência e responsabilidade social e ambiental?

Preferiram destruir a roupa e enviá-la para o lixo do que fazer um donativo a instituições de solidariedade social ou a necessitados!...

Como diz o jornalista, com 1/3 da população nova-iorquina pobre (mais ou menos 3 milhões de pessoas), é imoral esta atitude dos grandes grupos económicos.

Como diz Fernando Nobre, presidente da AMI, a continuar assim caminhamos para o Apocalipse…


Jornal New York Times


January 6, 2010

About New York

A Clothing Clearance Where More Than Just the Prices Have Been Slashed

By JIM DWYER


In the bitter cold on Monday night, a man and woman picked apart a pyramid of clear trash bags, the discards of the HM clothing store that reigns in blazing plate-glass glory on 34th Street, just east of Sixth Avenue in Manhattan.

At the back entrance on 35th Street, awaiting trash haulers, were bags of garments that appear to have never been worn. And to make sure that they never would be worn or sold, someone had slashed most of them with box cutters or razors, a familiar sight outside H & M’s back door. The man and woman were there to salvage what had not been destroyed.

He worked quickly, never uttering a word. A bag was opened and eyed, and if it held something of promise, was tossed at the feet of the woman. She said her name was Pepa.

Were the clothes usually cut up before they were thrown out?

“A veces,” she said in Spanish. Sometimes.

She packed up a few items that had escaped the blade — a bright green T-shirt that said “Summer of Surf,” and a dark-blue hoodie in size 12, with a Divided label. The rest was returned to the pyramid.

It is winter. A third of the city is poor. And unworn clothing is being destroyed nightly.

A few doors down on 35th Street, hundreds of garments tagged for sale in Wal-Mart — hoodies and T-shirts and pants — were discovered in trash bags the week before Christmas, apparently dumped by a contractor for Wal-Mart that has space on the block. Each piece of clothing had holes punched through it by a machine.

They were found by Cynthia Magnus, who attends classes at the Graduate Center of the City University of New York on Fifth Avenue and noticed the piles of discarded clothing as she walked to the subway station in Herald Square. She was aghast at the waste, and dragged some of the bags home to Brooklyn, hoping that someone would be willing to take on the job of patching the clothes and making them wearable.

A Wal-Mart spokeswoman, Melissa Hill, said the company normally donates all its unworn goods to charities, and would have to investigate why the items found on 35th Street were discarded.

During her walks down 35th Street, Ms. Magnus said, it is more common to find destroyed clothing in the H & M trash. On Dec. 7, during an early cold snap, she said, she saw about 20 bags filled with H & M clothing that had been cut up.

Gloves with the fingers cut off,” Ms. Magnus said, reciting the inventory of ruined items. “Warm socks. Cute patent leather Mary Jane school shoes, maybe for fourth graders, with the instep cut up with a scissor. Men’s jackets, slashed across the body and the arms. The puffy fiber fill was coming out in big white cotton balls.” The jackets were tagged $59, $79 and $129.

This week, a manager in the H & M store on 34th Street said inquiries about its disposal practices had to be made to its United States headquarters. However, various officials did not respond to 10 inquiries made Tuesday by phone and e-mail.

Directly around the corner from H & M is a big collection point for New York Cares, which conducts an annual coat drive.

“We’d be glad to take unworn coats, and companies often send them to us,” said Colleen Farrell, a spokeswoman for New York Cares.

More than coats were tossed out. “The H & M thing was just ridiculous, not only clothing, but bags and bags of sturdy plastic hangers,” Ms. Magnus said. “I took a dozen of them. A girl can never have enough hangers.”

H & M, which is based in Sweden, has an executive in charge of corporate responsibility who leads the company’s sustainability efforts. On its Web site, H&M reports that to save paper, it has shrunk its shipping labels.

How about all the solid waste generated by throwing away usable garments and plastic hangers?” Ms. Magnus asked in a letter to the executive, Ingrid Schullstrom. She volunteered to help H & M connect with a charity or agency in New York that could put the unsold items to better use than simply tossing them in the trash. So far, she said, she has gotten no response.

On Monday night, Pepa’s shopping bag held a few items. She pointed to her gray sweatpants. “From here,” she said.

How about coats? “Maybe tomorrow,” she said.

http://www.nytimes.com/2010/01/06/nyregion/06about.html?partner=rss&emc=rss


04/01/10

Pensamento

Durante uma carreira que atinge as duas décadas, já ensinei um número de alunos equivalente ao milhar. Muitos já são adultos, com formação académica superior, meus alunos em disciplinas sujeitas a exame nacional; exercendo a profissão, significa que concluíram com sucesso a candidatura ao ensino superior, inferindo que os conhecimentos que transmiti eram correctos, permitindo-lhes resolver positivamente o exame nacional. Contudo, fui sempre avaliado com Satisfaz, uma classificação qualitativa que não estimula a admiração. Será que agora, havendo Muito Bom e Excelente, os alunos dos Bom serão pior preparados? Assim sendo, orem para que nenhum dos meus antigos alunos agora médicos, engenheiros, etc., executem tarefas com um grau de responsabilidade elevado, pois foram preparados por um professor que não é Excelente nem Muito Bom...

03/01/10

Uma denúncia universal

Não é exclusivo deste país, bem como as consequências para quem denuncia (mesmo nos países ditos democráticos). Obviamente que o individuo foi demitido e processado judicialmente.

02/01/10

O dilema da gnose

Uma das questões prementes e frequentes do ser humano quando se confronta com algo novo ou com um dever é saber para que serve, qual a sua utilidade prática. A escola é um local onde esta questão surge amiúde através dos alunos. Para que serve este conteúdo? Para que quero saber esta informação?
Uma mãe com a escolaridade obrigatória perguntou-me a opinião sobre se deveria vacinar contra a gripe A o seu bébé. Aqui está um exemplo concreto daquilo que todos nós vamos encontrar ao longo da vida: situações em que temos de decidir. Uma boa decisão é aquela que é fundamentada em informação sólida e veridica; esta mãe tinha dificuldade em decidir porque não possuía essa informação. Portanto, só lhe restam 2 alternativas: acreditar no que outros lhe dizem ou decidir individualmente de forma consciente e informada. No caso concreto, para uma decisão fundamentada tem de possuir conhecimentos de Medicina, Biologia, Quimica, para que possa ponderar sobre as vantagens e desvantagens de tomar ou não a vacina. E como se obtêm esses conhecimentos? Na escola, através daqueles conteúdos que provavelmente no momento em que foram estudados pareciam que não serviam para nada...
Também a posse de informação permite que o individuo não seja manipulado e enganado por quem detenha o poder; muitas vezes são implementadas decisões gravosas para os direitos humanos e sociais dos individuos, que estes não se apercebem porque não compreendem tecnicamente as consequências das decisões. Um exemplo concreto é a fórmula de cálculo da pensão de reforma; quantos cidadãos a conhecem e compreendem? São necessários conhecimentos matemáticos de nível secundário para se compreender a resolução da fórmula. Os cidadãos que não possuem esses conhecimentos limitam-se a aceitar o que os decisores lhes dizem e só tardiamente irão compreender os efeitos que sofrerão individualmente.
Mas, como é apanágio do Universo, tudo tem um reverso: possuir conhecimento tem o seu lado negativo. É uma paradoxo filosófico que é mencionado há milénios: o conhecimento tanto tem de marvilhoso e belo, sendo a chave que abre as portas da percepção, como tem de angustiante e sofredor. No séc. III A.C. determinados autores escreviam:
- (...) Decidi então conhecer a sabedoria e a ciência, assim como a tolice e a loucura. E compreendi que (...) onde há muita sabedoria há também muita tristeza, e onde há mais conhecimento, há também mais sofrimento. Ecclesiastes 1, 17-18
- A sabedoria dos homens alegra-lhe o rosto e abranda-lhe a dureza da face. Ecclesiastes 8, 1

Este dilema filosófico parece que lança mais confusão, mas no íntimo o que implica é que cada um tem de escolher na bifurcação da gnose o caminho que vai trilhar, sabendo que desemboca em destinos e consequências diferentes, comportando sempre as duas faces antagónicas do Universo...

01/01/10

O embrulho da sofisticação

Após décadas a viver neste planeta, constato que a vida do humano moderno não é diferente do seu antepassado hominídeo no seu objectivo principal: obter os recursos para (sobre)viver.

Enquanto no passado a vida quotidiana se baseava na busca do alimento e água, agora baseia-se na busca do dinheiro que dá acesso ao alimento e água. Se analisarmos o quotidiano de cada um, é exactamente esse objectivo principal que tem de ser sempre cumprido; uma diferença, é que o sedentarismo em grandes metrópoles permitiu que grupos de humanos tenham tempo para se dedicar ao ócio, só possível, porque têm outros grupos de humanos a assegurar as suas necessidades básicas.

A parafernália científica e tecnológica criou uma ilusão de que fazemos algo mais do que simplesmente obter os recursos básicos; mas se analisarmos introspectivamente o nosso quotidiano veremos que é esmagadoramente dedicado ao trabalho, ou seja, à obtenção do recurso financeiro que permite obter os recursos básicos…

Os nossos antepassados dedicavam a manterem-se vivos o tempo suficiente até se reproduzirem, e actualmente, para muitos milhões de humanos, isso não será diferente…

Numa espécie com o intelecto mais desenvolvido, o sentido da vida torna-se angustiante quando se escamoteia o quotidiano…

31/12/09

30/12/09

Um mau ano

A título individual, cada um classifica o ano que passou de modo diferente: bom ou mau. Mas o ser humano pertence a uma espécie social e gregária, o que significa que a sobrevivência individual tem menos probabilidades. Deste modo, a titulo colectivo ainda não existiu um ano bom; todos foram maus porque continuam a persistir todos os males: pobreza, fome, falta de água, escravatura, guerra, etc.
Já chega de falsos optimismos: o próximo ano vai ser mau. Só será bom se os decisores políticos e os detentores da riqueza planetária se tornarem humanistas, o que obviamente é uma ideia ingenuamente utópica...

É preciso denunciar

Este casal de arquitectos tem um site na Internet (http://www.carloscastanheira.pt/), um gabinete em Vila Nova de Gaia, um portefólio nacional e internacional, publicitam a parceria com Siza Vieira, possuem uma moradia unifamiliar com várias divisões, e têm um filho no ensino secundário numa escola pública a usufruir da acção social escolar no escalão B!...
Para usufruírem deste direito social tiveram de apresentar um rendimento per capita entre 0,5 x IAS x 14 e 1 x IAS x 14, em que o IAS= €419,22. Este escalão dá direito a que a escola pague metade das despesas em visitas de estudo e nas despesas de aquisição de material escolar bem como refeições.

É credível que este casal com este currículo aufira rendimentos deste montante?
Que melhor exemplo demonstrativo da ineficácia da máquina fiscal, da injustiça social, da falta de ética e moral, e de um furto a todos os cumpridores?
Multiplique-se este exemplo pelas centenas de milhares que pululam pelo país e já se percebe o motivo do subdesenvolvimento nacional...

E continuam a idolatrar estas coisas...


Ladrões de gravata


A diferença em relação aos outros é só uma: não usam armas nem violência para roubar.

O perverso modelo sócio-económico

NA TERRA DA MISÉRIA E... DOS PORSCHES

POR CESALTINA PINTO – revista VISÂO

No Vale do Ave, não há empregos: há despedimentos, salários em atraso, lay off. O comércio ressente-se. Só
o Centro da Porsche não se queixa: em dois meses, fez metade das vendas de um ano
'Assim se faz Portugal. Uns vão bem e outros mal.» A canção de Sérgio Godinho não sai da cabeça, quando se vagueia pelo Vale do Ave. Em Vizela, Patrícia Oliveira, 32 anos, desatou a fazer tricô e croché. Os cachecóis vão crescendo, ao ritmo da sua impaciência. A região já não tem muito para oferecer a uma mulher como ela, com apenas o 6º ano de escolaridade, vítima de despedimento colectivo de uma têxtil-lar.
A estrada entre Braga e Guimarães dei­xa uma sensação de morte lenta. As fábri­cas, na berma da estrada, despertam-nos a nostalgia do que já foi grande, como a Outeirinho, a Lameirinho, a Riopele...
Em Guimarães, o condomínio privado Villas Flor é um sinal dos tempos. São 80 aparta­mentos de luxo, construídos no local onde já laborou uma grande empresa têxtil, de que só restou a fachada.
O soco no estômago espera-nos em Celeirós, Braga. O Centro Porsche foi inaugurado em Setembro mas, no fim de Outubro, as nuvens carregadas não ofus­cavam o brilho do interior. Rui Franco, só­cio-gerente, tinha razões para fazer estou­rar a rolha do champanhe que partilhava com os funcionários.
Ou seja: a Porsche vendeu 12 Panamera, em dois meses, quando o objectivo era vender oito num ano! Sendo que o pre­ço médio deste carro anda pelos 200 mil euros (o Turbo chega a 225 mil euros e também já estava vendido). «Só esta ma­nhã vendemos quatro e já temos pedidos para entregas em 2010.» Rui Franco não podia estar mais satisfeito. Antes de inau­gurar o stand, tinha já 40 clientes em lista de espera. E se a intenção era negociar 50 unidades num ano, o certo é que, em nove semanas, já vendeu vinte e cinco.
Quem compra carros pelo preço de um T2 ou de um T3? «Vendemos para todo o País, mas 40% estão na Zona Norte. Te­mos o feirante, o empresário e o jogador de futebol.» Sem identificar os clientes, lá deixa cair: «Um só empresário comprou três. E um empresário têxtil, da Trofa, levou um Cabriolet [140 mil euros].» Há quem peça para levantar os carros durante a noite, uma vez que o stand presta serviço durante 24 horas, incluindo na oficina. Es­tarão estes empresários entre aqueles que dizem ser impossível aumentar o ordena­do mínimo de 450 para 475 euros?

'NEM DEIXAM APRENDER!'

Esta é uma realidade na qual Patrícia não se move. Mas Francisco Vieira, do Sindi­cato Têxtil de Guimarães, tem perfeita consciência dela: um país esquizofréni­co, a duas velocidades, condimentado por laivos de imoralidade. Sente-se indigna­do pelo que vê e ouve. «Fui ameaçado de morte por um patrão porque lhe pus em causa o processo. Não pagava havia três meses, despediu os trabalhadores, fechou a fábrica. Mas queria abrir outra e contra­tar 40 trabalhadores. E tinha uma grande fila à espera. É preciso dar caça a isto!», desabafa, apontando a legislação que per­mite fechar e abrir empresas, continua­mente e com impunidade.

27/12/09

Alguns manda-chuva

Não estão todos, mas já é exemplificativo:

Da lista liderada por Américo Amorim, fazem parte as famílias e holdings pessoais de Belmiro de Azevedo, Alexandre Soares dos Santos, Espírito Santo, Pedro Queiroz Pereira, Pedro Maria Teixeira Duarte, Vasco de Mello, António Mota, Manuel Fino, Joe Berardo, Nuno Vasconcellos, Horácio Roque, Joaquim Oliveira, Fernando Nunes, Luís Silva e Pinto Balsemão. O activo bolsista destes investidores, tendo por base os critérios acima referidos, estava valorizado em aproximadamente 19 mil milhões de euros, uma fatia que corresponde a quase 10% da capitalização bolsista do índice PSI 20. Entre 2008 e 2009, este património valorizou 5300 milhões de euros, o que traduz um crescimento de 38% em relação à valorização registada no final de 2008.


É extraordinário e inconcebível como a corrente económica dominante continua a impor que este modelo capitalista é o melhor para o desenvolvimento humano...


25/12/09

Feliz Natal?!

Frontalmente, o ser humano precisa prioritariamente de comer e beber para se manter vivo, o seu principal objectivo. No passado longínquo, teria de escolher um local com recursos naturais suficientes para alimentar uma determinada quantidade de indivíduos. Hoje, tem de ter o dinheiro suficiente para comprar os recursos. E portanto, a sua vida fundamenta-se na execução de actividades que proporcionem o acesso ao vil metal. Essas actividades são executadas num contexto de darwinismo social, sendo um paradoxo em relação à ideologia da época natalícia: solidariedade, paz, harmonia, altruísmo.

A solidão que mais se evidencia nesta época é ilusória: refere-se a não estar acompanhado por outros corpos, a interagir e comunicar com eles. Na realidade, cada um é sempre solitário, porque mesmo acompanhado por corpos, sente, pensa, sem que nenhum dos presentes percepcione essas actividades. Além disso, age em prol da usa sobrevivência individual, o que implica muita actividade solitária.

No contexto de relacionamento cortês e interesseiro- em que cada um se borrifa para o outro mas mantém uma relação cordial porque nunca se sabe quando um dia o outro lhe pode ser útil- é fátuo os votos que anualmente todos se desejam uns aos outros.

Os homens ditos santos- Cristo, Buda, etc.- tentaram pela palavra e acção demonstrar que existe o verdadeiro altruísmo, amor ao próximo, como a melhor opção de organização social. Com insucesso, como se constata no quotidiano: cada um manobra no sentido de obter os melhores proventos, mesmo que prejudique os outros.

Um dia como outro qualquer do ano: apenas simbólico mas sem simbolismo. Muitos milhões encaram o dia como um feriado, um dia em que não trabalham e dedicam ao lazer; e pelo caminho, a época do ano em que se aproveita para comprar os itens mais onerosos, numa fugaz sensação de felicidade e satisfação.

O sentido da vida esmorece, porque tudo se resume a possuir os bens materiais para sobreviver neste planeta…

21/12/09

Para recordar

Já está esquecida a desumanidade do anterior governo. Talvez este momento inspirado relembre esses tempos recentes:


Os Malefícios da Rivalidade na Escola

Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar. A mesquinhez de uma vida em que os outros não aparecem como colaboradores, mas como inimigos, não pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma visão mais ampla do mundo; esforço de vencer, temor de ser vencido; é já todo o temperamento de «struggle» que se afina na escola e lançará amanhã sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam. Quem não sabe combater ou não tem interesse pela luta ficará para trás, entre os piores; e é certamente esta predominância dada ao espírito de batalha um dos grandes malefícios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos; não se trata de ajudar, nem de ser ajudado, de aproveitar em comum, para benefício de todos, o que o mundo ambiente nos oferece; urge chegar primeiro e defender as suas posições; cada um trabalhará isolado, não amigo dos homens, mas receoso dos lobos; o saber e o ser não se fabricam, para eles, no acordo e na harmonia; disputam-se na luta. Urge quanto antes alargar a reforma radical que as escolas novas fizeram triunfar na experiência; que só haja dois estímulos para o trabalho nas aulas: a comparação de cada dia com o dia anterior e com o dia futuro e o desejo de aumentar o valor, as possibilidades do grupo; por eles se terá a confiança indispensável na capacidade de realizar e a marcha irresistível da seta para o alvo; por eles também o sentido social, o hábito da cooperação, a tolerância e o amor que gera a convivência em vez de um isolamento de caverna e de uma agressividade permanente; a vitória de uma ideia de paz sobre uma ideia de guerra.
Agostinho da Silva, in 'Considerações'

Para a Salvação da Democracia

Ora a democracia cometeu, a meu ver, o erro de se inclinar algum tanto para Maquiavel, de ter apenas pluralizado os príncipes e ter constituído em cada um dos cidadãos um aspirante a opressor dos que ao mesmo tempo declarava seus iguais. Ser esmagada pelos condottieri que dispõem das lanças mercenárias ou pela coalizão dos que manejam o boletim de voto é para a consciência o mesmo choque violento e o mesmo intolerável abuso; um tirano das ilhas vale os trinta de Atenas e os milhares de espartanos. Pode ser esta a origem de muita reacção que parece incompreensível; há almas que se entregaram a outros campos porque se sentiam feridas pela prepotência de indivíduos que defendiam atitudes morais só fundadas na utilidade social, na combinação política. E de facto, o que se tem realizado é, quase sempre, um arremedo de democracia sem verdadeira liberdade e sem verdadeira igualdade, exactamente porque se tomou como base do sistema uma relação do homem com o homem e não uma relação do homem com o espírito de Deus. Por outras palavras: para que a democracia se salve e regenere é urgente que se busque assentá-la em fundamentos metafísicos e se procure a origem do poder não nos caprichos e disposições individuais, mas nalguma coisa que os supere e os explique, aprovando-os ou reprovando-os. O indivíduo passaria a ser não a fonte mas o canal necessário ao transporte das águas; nenhuma autoridade sem ele, nenhuma autoridade dele. Seria assim possível sacudir de vez as morais biológicas que nos têm proposto e, construindo um decálogo sobre os princípios divinos, ligar-lhe indissoluvelmente a política com uma simples extensão ou como outro aspecto de uma idêntica actividade. Não vejo outro alicerce senão o entendimento, o que, fazendo do animal a pessoa, ao mesmo tempo se coloca acima do indivíduo e se impõe como norma universal; e as maiorias, assim, só viriam a obrigar quando as suas resoluções coincidissem com a razão e com os fins últimos que a Humanidade se propõe atingir.
Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes'

Um povo culto

Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno.
Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes'

17/12/09

Colectânea de ódio

1. Será que esta classe não para com as suas atitudes circenses? Basta de reivindicações num País em crise onde são sempre os mesmos a pagá-la. São estes Senhores que menos trabalham: 12/14 horas por semana de 4 dias úteis durante 8 meses pois, têm 4 de férias mas, recebem bem e pontualmente durante 14. Grande parte deles arrastam-se pelas Escolas sem qualquer horário. Como exemplo e para se ter uma noção do que é o vencimentos destes Senhores vou relembrar os 3 últimos escalões: 245 - 2227,93; 299 - 2718,99; 340 - 3091,82 ao que acresce 4,27 euros diários (dias úteis) se subsídio de refeição. O Povo/Contribuinte está farto de tantas exigências e tão pouca produtividade pois são estes que passam a vida a dar no duro para que, os ditos, levem uma vida animada e de luxúria. São os únicos que quanto mais anos têm de serviço e mais experiência, têm redução de Horário e melhor vencimento. São bem pagos para não trabalhar. Que País este onde vivo e tão fracos Governos tem tido, que não consegue pôr a trabalhar os que mais ganham e melhores regalias sociais possuem!!!!!! O Povo/Contribuinte deveria ser chamado a decidir sobre esta classe profissional de empregados do Estado.

2. Uma vez mais, uma das trupes de parasitas deste país vai ganhar. Para protestar, fazer greves e viagens a Lisboa têm tempo. Para melhorarem não. A satisfação de muitos (como eu) é que são, cada vez mais, vistos como parasitas da sociedade, usurpadores da riqueza criada pelo país e como responsáveis pela educação miserável dada às crianças/jovens deste país. Dizem que a culpa é do ministério/ministro. Mas se são eles que mandam no ministério/ministro da educação, podemos concluir que a culpa é deles. Professores? Não. Choradores. É que não fazem mais nada do que reclamar. Alguém lhes dá uma chupeta?

3. Esta Ministra da Educação é uma vergonha e um atentado aos Portugueses. Verga, porque de educação não sabe nada, ao oportunismo dos sindicatos dos professores. Quer dar uma de porreira, como aqueles professores incompetentes que nem escrever sabem e dão notas altas aos alunos para que estes os não chateiem, e dá aos sindicatos tudo o que estes exigem. Desrespeita quem, antes dela, esteve com dignidade e coragem no posto que ela ocupa. Onde está o corajoso Sócrates? Que pesadelo é este Portugal. Que ministra indigna do lugar que ocupa... Que vergonha!

4. É a hora de aproveitar o desgoverno, tudo que mexe com classes profissionais que representam muitos votos, o governo abre as ditas... e não só o governo até a oposição dá tudo. Quem vai pagar tudo isto?, querem que vos diga? os suspeitos o costume, o zé contribuinte, não funcionário público. Por favor entreguem este pedaço de terreno á Espanha, eu sei, eles não vão querer, mesmo de graça, mas está comprovado que os milages, às vezes, acontecem.

COMENTÁRIOS COLOCADOS EM:

http://www.publico.clix.pt/Educação/ministerio-assume-a-fenprof-que-professores-com-bom-terao-acesso-ao-topo-da-carreira_1414238

O ódio, a inveja mesquinha persiste. Só uma amostra do que se ouve na rua. Os docentes deviam mandar todos para a p*** que os pariu e demitirem-se em bloco todos os 150 000 ‘parasitas’ do sistema educativo, como ameaçaram os enfermeiros finlandeses o ano passado, e que fizeram baixar a bola ao governo finlandês. Mas como os docentes são escravos e temerosos, vão continuar a ser enxovalhados porque estão f*******: precisam da m**** do dinheiro para viver, e portanto, prostituem o seu estatuto social, em prol de uma cambada de ingratos que não reconhecem que sem o sistema educativo, mesmo que mediano, os seus filhos estavam entregues à bicharada e a maioria deles seria delinquente...

16/12/09

Efeitos da avaliação

Quando em 2005, o governo socialista liderado pelo indescritível PM, implementou a tão propalada reforma da Administração Pública, o cavalo de batalha largamente utilizado foi a avaliação dos funcionários, tendo sido apresentado como a panaceia que iria aumentar a eficiência e produtividade do Estado. No final destes anos, e após a publicação dos resultados da dita avaliação (exceptuando em alguns sectores), o que mudou?
Mais conflitualidade, ressentimento, vingança e represálias pessoais, clima de medo e repressão, ou seja, tudo o que contribui para a diminuição da eficiência e produtividade.
O cidadão pode afirmar peremptoriamente que os serviços melhoraram significativamente? Pelo estado de alma emanado pela população, a resposta é francamente negativa...
Seguindo o raciocínio cientifico, conclui-se que a panaceia não foi mais do que atirar areia para os olhos e um formidável método de poupar euros em salários...

Um dilema ético perturbante

IEFP afasta jurista por actuar de forma isenta e imparcial

Pode até parecer absurdo, mas o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) afastou do serviço um dos seus mais antigos advogados, só porque este insistia em manter uma postura de isenção e imparcialidade.

"Não acompanha os desafios e objectivos" propostos e "necessita de ter outro tipo de estímulo e de experiência dentro da nossa organização", escreveu a directora dos Recursos Humanos da Delegação Norte na proposta de afastamento do advogado. Para o jurista a questão é, no entanto, outra, já que antes a directora o havia criticado pela sua postura de "isenção e imparcialidade" face à lei, advertindo-o de que lhe poderia "prejudicar a carreira". A direcção do IEFP diz que aquela não é a posição do instituto: "Não é a posição do IEFP, nem julgo que alguma vez a dita funcionária o tenha dito", frisa a resposta, por correio electrónico, às questões do PÚBLICO.

O facto é que o escreveu: "Tenho sentido que olha para a lei com a isenção e imparcialidade de um juiz que a tem de aplicar. Contudo, é advogado do IEFP. É certo que o IEFP prossegue o interesse público, mas [você] prossegue outro objectivo, a saber: empregar os seus conhecimentos a favor do IEFP, numa óbvia perspectiva de parcialidade e de pouca isenção em abono do seu cliente. Tudo o que fizer ao contrário deste princípio prejudica a sua carreira", assim escreveu a directora num documento que dirigiu ao advogado e que este apresentou agora no Tribunal do Trabalho.

Aqui está um tema de interessante reflexão. Um advogado deve ou não deve possuir e praticar valores humanos, éticos e morais?
Neste contexto, compreende-se que para exercer a advocacia tem de se possuir um determinado perfil. Numa perspectiva profissional, o advogado tem de defender o cliente, independentemente de ter razão ou não. Nesta perspectiva, um advogado não aplica os tais valores morais e éticos, utilizando a manipulação, a falsidade, a argúcia, a desonestidade, para exercer uma representação eficaz. Ou seja, o fim justifica os meios. Numa perspectiva humana, um advogado não é digno de confiança, tornando-se um pária, devido à necessidade da sua acção ter de ser eficaz. Qualquer declaração de um advogado em exercício de funções tem de ser objecto de escrutínio critico muito rigoroso.
Portanto, por um lado a directora tem razão e por outro revela os valores pelos quais se rege a sociedade humana, o que não é nada tranquilizante.
Por isso, considero que quem possui e pratica os tais valores jamais pode exercer a advocacia de forma competente. Também se conclui que o Estado, quando lhe convém, usa de má-fé e de expedientes para se furtar à aplicação dos valores éticos e morais, de que deveria ser o pioneiro a praticar.