02/05/09

Sintoma de uma sociedade afectivamente doente

Este episódio revela a doença crónica afectiva de que padece a sociedade humana; o desprezo prestado a muitos seres huamanos, a indiferença entre uns e outros, a competição destrutiva pela posse num lugar cimeiro no colectivo, leva ao abandono e indiferença afectiva, que resulta nestas atitudes (aparentemente) incomprensiveis:



29/04/09

A realidade nua e crua

Sobre um presidente de câmara municipal pendiam suspeitas de peculato; os indícios eram fortes mas daí a obter-se meios de prova vai uma distância grande. Foi absolvido em tribunal e já anunciou que não se recandidata. No quotidiano, os cidadãos comentam indignados a falta de honestidade e outros impropérios, mas a realidade nua e crua é que isso não afecta pessoalmente o autarca, porque tendo cumprido 3 mandatos, já garantiu uma pensão de reforma que lhe permite viver desafogadamente, enquanto que para o cidadão comum pende a espada de Dâmocles das dificuldades.

Seja primeiro-ministro, ministro, autarca, ou qualquer outro cargo superior da Administração Pública, com duvidoso carácter moral e ético, no regime actual, individualmente não sofre qualquer consequência: todos eles garantem o bem-estar material até ao fim dos seus dias. Que consequências sofre o PM sabendo que obteve uma licenciatura por tráfico de influências, ou envolvimento em actos decisórios obscuros? Mesmo ficando com a reputação social manchada, a nível pessoal garantiu o bem-estar e consequente qualidade de vida, porque quando abandonar o cargo tem direito a uma pensão de reforma, além de muito provavelmente ter garantido um cargo superior numa instituição nacional ou internacional.

Obviamente que o cidadão comum é contagiado por estas atitudes, e se não existisse a repressão- sob a forma de leis e forças de segurança- muito provavelmente seria a anarquia, porque todos iriam legitimamente procurar o melhor para si...

Deste modo, as elites produzem as leis para conter a população e evitar que esta também enverede por esquemas duvidosos, pelo simples facto que os recursos são limitados e não são suficientes para todos poderem retirar o seu pedaço...

E daí a pertinência do famoso refrão de uma música e autor que dispensam apresentações: “Eles comem tudo e não deixam nada...”

Colectivo vs individual

Num blog mediático (A Educação do meu umbigo), o seu autor escreveu isto:

Tornei-me gradualmente, ainda no início da idade adulta, um descrente em matéria de colectivos. Ainda mais dos colectivos por inacção ou daqueles em que os indivíduos se escondem por entre as massas.
Sei, por observação directa, que protegidos pela multidão, há indivíduos extremamente corajosos, que gritam a plenos pulmões a revolução total e outras coisas igualmente desinteressantes.
Por deformação, desconfio das tomadas de posição unanimistas, de braço no ar ou caído. Deve ser por isso que há quem me ache um bocado reaccionário, pois - apesar da prática de trabalho em equipa não me desagradar nada - sou fortemente individualista num sentido algo radical, ou seja, no de que cada indivíduo deve ser responsável pelos seus actos e não se acobertar atrás do colectivo.

O colectivo de que eu mais gosto - talvez mesmo o único - é aquele que se constrói pela soma das vontades e atitudes individuais, conscientes e livres. Não por pressão dos pares ou conveniências do momento.

Apesar de uma argumentação algo contraditória, a atitude individualista de luta é louvável e reveladora de uma integridade moral e ética. Contudo, é ineficaz e insensata. Num regime não democrático ou deficientemente democrático (como aquele em que vivemos) o cidadão comum sozinho não tem qualquer tipo de defesa contra as potenciais injustiças a que possa ser sujeito pelo sistema. A sua única defesa está no número, na união; se ele se integrar no colectivo dos outros cidadãos, obtém-se um mecanismo de defesa poderoso. Uma atitude solitária, não consegue provocar mudança e é sumariamente trucidada pelo sistema; uma atitude colectiva, dificilmente é trucidada e pode provocar mudança para cada indivíduo. Sugere-se que o somatório das atitudes individuais constroem o colectivo; apesar da lógica do raciocínio, este enferma da falta de coordenação: sem ela, o somatário apenas fica pelas parcelas. É necessário coordenar as parcelas, que cada uma saiba o que a outra faz, para que obtenha um resultado colectivo.
O que é preferível: que existam muitos cidadãos que só se manifestem a coberto da multidão ou que nem sequer se manifestem? Entre uns e outros, é de valorizar os que se manifestam; os outros, não correm nenhum risco, não abdicam, e se não existir mudança, resignam-se, mas se existir, usufruem dos benefícios sem terem mexido uma palha...
Portanto, não é intelectualmente correcto menosprezar os que se predispõem a se manifestar a coberto da multidão; há vários séculos atrás, Gengis Khan teve o discernimento de compreender este fenómeno e para convencer os seus generais da necessidade de fazer alianças com outras tribos, exemplificou da seguinte maneira: pegou numa seta e quebrou-a facilmente; depois, juntou um molho delas e ninguém as conseguiu quebrar...

Quem manda numa nação?

Quem tem o poder económico e financeiro; tendo este, tem o poder das armas. Mao Tse-Tsung afirmou pertinentemente que o ‘poder está na ponta da espingarda’; tendo o dinheiro, compra-se este poder, por que os militares também o procuram. Por isso, é uma falácia quando se afirma que num regime democrático o poder está nas mãos civis; quem sustenta a soberania das instituições é quem tem as armas na mão, e portanto, os civis necessitam do apoio incondicional das forças armadas e de segurança, sem as quais ficam sem o poder. Deste modo, deduz-se que o verdadeiro poder esteve, está e estará nas mãos das forças armadas.

25/04/09

Nós, o povo, é que ainda não sentimos o verdadeiro 25 de Abril. Os autores materiais da revolução podem exprimir o seu desalento e dizer o que vai na alma do povo, mas mantêm o seu estilo de vida, com os seus rendimentos garantidos, os direitos adquiridos, as promoções por critérios políticos. Nenhum deles está em situação de crise, sufoco financeiro, ou vislumbra a hecatombe do desemprego no horizonte. A verdade nua e crua é esta: nenhum politico, dirigente, oficial militar, vive na iminência do desemprego ou de salários precários, tendo sempre garantido o rendimento confortável até ao fim dos seus dias.
Nós, o povo, é que sofremos na pele o que para esses é um simples imaginário…

24/04/09

24 de Abril

Em muita coisa ainda continuamos como era o país no dia 24/04/1974. Principalmente, desde 2005 com a posse de um governo cuja ideologia que empunhou foi uma das principais responsáveis pelo 25 de Abril, que o retrocesso foi insidioso e marcante. Vários sinais de repressão foram surgindo, de traição politica, arvorando ideias que quando se concretizam se revelam antagónicas ao que se anuncia.
Continuamos com o mesmo problema endémico que sempre existiu: a corrupção. O orçamento de Estado é um bolo muito apetecível para ser sujeito ao saque sistemático pelos mesmos grupos de pessoas que apresentam o mesmo apelido de família que há décadas também existiu; continuam a governar, a explorar, a reprimir e a manter o status quo social com a mesma desigualdade.
A ditadura não acabou; adaptou-se, camuflou-se sob outras capas ilusoriamente benéficas, e age encapotadamente ao longo do tempo. Jamais irá se extinguir; apenas existe a esperança de a dominar e condicionar a níveis menos maléficos para o cidadão comum.

17/04/09

Tópico 400

Os chamados números redondos sempre foram atractivos na história da humanidade; talvez pela sensação aparente(?) de equilíbrio, harmonia, que transmitem. Sendo este o tópico nº 400, cai neste conceito que explicitei. O blog é uma catarse das nossas ansiedades, receios, medos, pensamentos, emoções, reflexões. A necessidade de partilhar publicamente talvez seja uma forma de procurar a cooperação, a percepção de comunidade em que os seus elementos possuem características em comum que muitas vezes se convenciam de não existirem.

O objectivo final é que todos interiorizem que estão no mesmo barco, a navegar nas mesmas águas, e que apesar de poderem estar em locais distintos dentro do barco, as suas acções nesses locais condicionam o barco na sua totalidade.

28/03/09

Retrocessos civilizacionais

- O que foi construído no passado como um passo no desenvolvimento e bem-estar dos povos está actualmente a ser destruído. E, incompreensivelmente, está a ser destruído numa época financeiramente mais rica do que a anterior. O alargamento dos cuidados de saúde a todos os distritos (com hospitais distritais, SAP, centros de saúde, etc.), os ramais das linhas de comboio em muitas zonas do interior, os serviços públicos colocados em zonas populacionais (estações do correios, repartições públicas), etc., estão a ser encerradas com o principal argumento da contenção de custos, quando o PIB é muito superior ao PIB de quando foram construídos.
- Ser idoso era uma mais valia nos tempos dos nossos antepassados: era o membro com experiência de vida, o conselheiro nas decisões quotidianas difíceis, o acompanhante das gerações mais novas. Em muitas regiões de África e Ásia ainda assim é mas no mundo ocidental passou a ser um fardo. Todo o ser humano que com a idade perca a sua independência e autonomia, está condenado a residir nos centros de espera do fim de vida (vulgarmente denominados lares), levando uma existência ambulatória, de passagem lenta e inútil do tempo, esperando que a natureza desligue o botão biológico. Perde-se e desperdiça-se um capital humano, causado por esta sociedade moderna do consumo e do materialismo, e daí a discussão da eutanásia cada vez ter tanta relevância...

O apagão mundial

É simbólico, mas o simbolismo pode motivar mudanças, e estas são vitalmente necessárias porque está em causa a sobrevivência da humanidade e da biosfera. Se só 1% da população do mundo industrializado executar este acto simbólico, são umas valentes toneladas de contaminantes que não são produzidas. E, portanto, vou desligar...

26/03/09

Clamar por justiça

Pensões milionárias, demissões e fechos de fábricas fazem disparar a agitação social
26.03.2009, Ana Rita Faria - PÚBLICO

O ataque à casa do ex-presidente do Royal Bank of Scotland foi a última gota de uma onda de protestos que tem varrido a Europa e os EUA. Especialistas dizem que não vai ficar por aqui

Uma pensão anual de 750 mil euros, três janelas de casa partidas, menos dois vidros no Mercedes S600. O dia amanheceu sombrio no bairro de Morningside, em Edimburgo. Antes do raiar do sol já a casa de Fred Goodwin, ex-presidente do Royal Bank of Scotland (RBS), estava rodeada de polícias. Um grupo, que se chamou a si mesmo Os Patrões dos Bancos São Criminosos, partira janelas da moradia de Goodwin, bem como o vidro traseiro e um lateral do seu automóvel."Estamos furiosos com as pessoas ricas que, como ele [Fred Goodwin], se enchem de dinheiro e vivem no luxo, enquanto as pessoas comuns ficam desempregadas, sem posses ou sem casa", explicava o grupo responsável pelos ataques, num e-mail enviado a um jornal escocês. A revolta continuava: "É um crime; os patrões dos bancos deviam estar na cadeia". E deixa o aviso: "Isto é só o começo". O dia de ontem provou que sim.
"Enquanto uns são despedidos, outros recebem prémios, o que provoca em qualquer cidadão um choque enorme", diz o sociólogo Sérgio Aires, que dirige o Observatório de Luta contra a Pobreza de Lisboa. O caso de Fred Goodwin é o último exemplo. O ex-presidente do RBS atiçou a ira pública depois de se recusar a devolver uma pensão de 700 mil libras, a que tinha direito por ter pedido reforma antecipada. Até aqui tudo bem, não fosse o facto de o banco estar à beira da falência e só ter escapado graças à ajuda do Governo.
Apesar dos protestos, Sérgio Aires não acredita que venha a ocorrer uma alteração significativa nos prémios e pensões recebidas pelos executivos. Só uma coisa é certa, diz o sociólogo: o clima de agressividade será maior a partir do momento em que o número de pessoas desesperadas aumentar. E, sobretudo, quando a crise atingir a sério as classes médias. "Quem ainda tem emprego está apenas assustado, mas, comparando com alguns meses atrás, pode até estar numa situação melhor, pois as rendas e prestações de casa baixaram, bem como os preços", diz Sérgio Aires. Só "quando a crise nos começar a tocar a todos um bocado mais" poderão ver-se acções mais agressivas, defende.Já para Rogério Roque Amaro, economista social e professor do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), o mal-estar estava latente e é o resultado de "uma sociedade fragmentada e desigual e de um sistema económico que está longe de ser tão eficiente quanto nos faziam crer". De acordo com Rogério Amaro, era natural que as reacções de protesto rebentassem e que continuem a rebentar com mais força daqui para a frente. E ainda bem, diz o economista. Afinal, "os protestos dos cidadãos são o fogo que alimenta a capacidade da sociedade civil de gerar um novo sistema (...).

19/03/09

Citação

"O PS já ocupa todos os altos cargos públicos, faz lembrar o Zeca Afonso: 'eles comem tudo'".
Nascimento Rodrigues, provedor de Justiça, "Visão", 19-03-2009

14/03/09

A avaliação do desempenho

Como vaticinei há longos meses, a avaliação de desempenho profissional imposta na administração pública não é objectiva, sendo muito permeável à influência da percepção pessoal. Os avaliadores avaliam muitas vezes influenciados pela afinidade ou incompatibilidade pessoal em vez da observação do desempenho profissional. Já comecei a ver muita lágrima de frustração por avaliações totalmente influenciadas por questões pessoais e o processo tenderá a agravar-se quando se generalizar em velocidade de cruzeiro a avaliação de desempenho profissional. Com este modelo, as atitudes persecutórias aos não alinhados, as represálias, vinganças pessoais, serão a regra e não a excepção.

13/03/09

Contradições

A desvalorização da Galp e a crise da cortiça fizeram que perdesse mais de metade da fortuna, avaliada em 2,6 mil milhões de euros, e despedisse 193 trabalhadores, mas permanece na lista dos mais ricos. (…) Perdeu mais de metade da sua fortuna mas continua a ser o português mais rico do mundo. Segundo a revista Forbes, Américo Amorim ocupa a 183.ª posição na lista dos milionários de 2009, com os seus 3,3 mil milhões de dólares (cerca de 2,6 mil milhões de euros). DN

Uma contradição abjecta e imoral: um homem cuja fortuna daria para pagar os salários de quem despediu até à aposentação e ainda sobraria imenso dinheiro, escolhe a opção de lançar no desespero quase duzentas famílias.
Existe algo de muito errado na actual organização sócio-económica…

09/03/09

Verdade evidente

"O Partido Socialista assaltou o Estado de uma forma nunca vista e usa os dinheiros públicos para comprar apoios e castigar quem ousa pôr em causa o grande líder".
António Ribeiro Ferreira, jornalista, "Correio da Manhã", 09-03-20

05/03/09

A mesquinhez assassina

O PS cedeu e finalmente anuiu em abolir as (incompreensiveis) taxas moderadoras que criou para os internamentos e cirurgias, mas vai votar contra uma proposta de abolição na Assembleia porque é elaborada pela oposição. Esta mesquinhez politica revela o carácter pessoal de quem representa a nação e não augura nenhuma esperança de que algo colectivamente alguma vez possa mudar...

03/03/09

A força da violência

Nos primeiros dias de Fevereiro, os cartéis da droga fizeram este ultimato: o chefe Roberto Orduña Cruz, o velho general que desde Maio chefiava a polícia da cidade da droga, devia demitir-se. Por cada 48 horas que ficasse, um polícia seria assassinado.Dois dias depois, pontualmente, o braço-direito do chefe da polícia apareceu morto com outros três agentes. Dois dias depois, um guarda de prisão levou um tiro mortal. E o número foi aumentando até que, a 20 de Fevereiro, Orduña Cruz cedeu. DN
Será que a organização social a que chegaram estes países é o resultado da famigerada globalização neoliberal selvagem? O desespero dos imensos excluídos do sistema económico capitalista associado à filosofia consumista teve como resultado a implantação destas organizações criminosas? Será que a ausência de um Estado social forte contribui para o avolumar da selvajaria?
A certeza é que a vantagem está do lado de quem transgride, não possibilitando margem de resposta à outra parte.

28/02/09

A recompensa previsivel

O constitucionalista Vital Moreira será o cabeça-de-lista do PS ao Parlamento Europeu (PE). O anúncio foi feito por José Sócrates aos congressistas, reunidos em Espinho. SOL

Era de prever! O cão de guarda socrático mais feroz e interveniente nos jornais, só podia ter esta recompensa. Muito provavelmente toda a sua atitude ia nesse sentido, de receber o devido prémio pela defesa implacável do socratismo. Lá dizia o Vasco Santana: "Andamos todos ao mesmo!..."

E tudo continua na mesma...

A recente compra de quatro viaturas de gama alta por parte do Conselho de Administração (CA) do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro caiu mal no meio hospitalar. O presidente do CA, Carlos Vaz, justifica que as viaturas se destinaram aos membros que ainda não tinham carro e que se trata de uma regalia legal. No entanto, uma fonte que preferiu não ser identificada argumentou que "quando a palavra de ordem é reduzir encargos e custos, é lógico que a compra gerou descontentamento". DN
As elites dirigentes continuam com a mesma mentalidade: não estão lá para servir mas para se servirem (do erário público)...

Ignóbil

373,5 milhões de euros foi o resultado final do leilão de Paris, que bateu o recorde mundial de venda de uma colecção privada. DN

Como é possível existirem pessoas que se dispõem a gastar estas quantias por arte? Qual o seu impacto nas comunidades em que residem? Será que usam a sua colossal fortuna para desenvolver a comunidade em que vivem? Pelas condições de vida de muitos milhões de pessoas, parece que a resposta é negativa...

25/02/09

Reflexão metafisica

O fim é igual para todos. Será o único momento temporal em que a igualdade existe no seu estado puro: seja rico ou pobre, todos morrem. A diferença apenas está no 'durante:' uns com melhor qualidade, outros com pior. Este fatalismo inultrapassável coloca muitas questões sobre o sentido da Vida, sobre todos os comportamentos que os humanos assumem em vida. A competição desenfreada, o individualismo, a violência e o ódio, o eliminar o outro, tornam-se absurdos perante a evidência que nada disso impedirá o fim físico inevitável.
Mas a consciência da morte não tem impedido para que as atitudes e comportamentos desviantes e negativos, que induzem sofrimento no outro, tenham sido eliminadas da acção humana. Essa consciência poderia ser catalizadora de um admirável mundo novo, mas a história já desmentiu essa hipótese...